terça-feira, 17 de março de 2009

auto-exotismo


Produz-se, a partir da idealização das metrópoles, uma espécie de auto-exotismo, em que o intelectual “periférico” percebe a realidade que o circunda como “exótica”. O exotismo permite, por um lado, o distanciamento ante os costumes da própria sociedade, trazendo um olhar antropológico. Por outro, introduz negatividade na sua auto-representação, que leva à visão etnocêntrica das culturas populares de origem africana, indígena ou mista. (VENTURA, Roberto. Civilização nos trópicos. In Estilo Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1991).

zeroglota

Pra terminar o assunto da viagem do Lula aos EUA, sobre o discurso dele, fica a conclusão: o Fernando Henrique era poliglota, falava abobrinha em vários idiomas. O Itamar era monoglota. E o Lula é zeroglota!!! Fala um dialeto não reconhecido pela Onu! Onu por Onu, prefiro Honolulu!!! (Macaco Simão. Buemba! Lula e Bush juntos: the ping is on the table!!! E coitado do tradutor!!!, UOL Notícias, 26/09/2007).

incertezionista


Esta dualidade parece revelar que o capitalismo é ainda mais plástico e adaptável do que Marx projetava. Mas isto não nos joga necessariamente no campo de Schumpeter, mais “incertezionista e relativista” do que o de Marx. Pelo contrário: nos recoloca na trilha marxista ao propor a questão das determinações histórico-materiais da construção de instituições (em particular, mas não só, do Estado) capazes de driblar a plena manifestação das tendências mais perversas do sistema capitalista. (In PAIVA, C. A. N. Noções de economia. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2008. p. 66).

horogênese


Um exame da configuração histórica das díades fronteiriças brasileiras revela, quanto às condições de origem, o papel significativo, embora longe de predominante, desempenhado pelas guerras. Quanto ao momento da sua delimitação, o exame derruba facilmente o mito da antigüidade das linhas limítrofes do país: o Império é o grande período de horogênese – para empregar outro termo cunhado por Foucher [O termo foi cunhado a partir da raiz grega horoi – da qual se originou “horizonte” em línguas latinas – que servia para designar os limites políticos do território da cidade]. Evidentemente, a classificação da horogênese implica uma dose razoável de subjetivismo, pois cada díade ou segmento condensa uma história complexa que envolve, às vezes, sucessivos tratados contraditórios, novos litígios, episódios de conflito militar ou arbitragem. Tomou-se por base classificatória o momento da delimitação estrutural de uma linha de fronteira, que pode ser eventualmente anterior ao tratado definitivo, mas que o condicionou decisivamente. (In MAGNOLI, D. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808-1912). São Paulo: Moderna/Edusp, 1997.)

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

iatrogênese

O termo 'talidomida' virou palavrão, mas a substância ainda é um remédio importante. Suas propriedades antiinflamatórias e de combate à proliferação de vasos sangüíneos fazem dela um medicamento útil para tratar tanto a hanseníase, a doença antes conhecida como 'lepra', quanto o mieloma múltiplo, um tipo de tumor da medula óssea. Como quase ninguém sabe disso, prossegue a má fama. A reputação nasceu com um célebre desastre iatrogênico, quer dizer, efeitos adversos causados pela própria medicina. Nos anos 1950, a droga foi aprovada na Europa para tratar náusea e vômitos em mulheres grávidas (nos Estados Unidos, esse uso nunca chegou a ser autorizado). Em conseqüência, cerca de 10 mil bebês nasceram com malformações, e a talidomida terminou banida. (LEITE, Marcelo. O enigma da talidomida. In Folha de S. Paulo, 28/12/08).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

ortorexia

Ortorexia vem a ser, mais ou menos, a mania exagerada de ingerir a comida correta, segundo seu conteúdo nutritivo, a hora em que é ingerida, a mastigação, o ambiente, o estado de espírito, a origem dos alimentos e, enfim, os inesgotáveis problemas que podem acometer o ortoréxico, que no futuro, dizem-me cá, deverá andar com uma espécie de pochete ortoréxica, contendo o mínimo essencial para o laborioso ato de comer: balança, analisador de teor de acidez, detetor de agrotóxicos, detetor de hormônios e quem mais ousa adivinhar o quê. Talvez uma empresa lance o Eat-Ride, sucesso absoluto de vendas, até que a Apple anuncie o iPot e todo dia pinte um modelo novo, vai ver que um possa até almoçar pelo dono, se faltar tempo, em época na qual ele é tão escasso e, assim mesmo ou por isso mesmo, gastam-se fortunas para matá-lo. (RIBEIRO, João Ubaldo. "Admirável Ano Novo". In O Globo, 28/12/08.

sábado, 27 de dezembro de 2008

transgressão oficial

[Os curadores e os detratores da Bienal] deixaram de lado coisas essenciais e enforcaram-se em seus próprios paradoxos. Os curadores disseram aos marginais: "eu sou o transgressor oficial, eu posso transgredir, você não". É um erro teórico e ideológico. A questão central a ser discutida é esta: nem toda transgressão é arte, nem toda arte é transgressão. Discutir isso é ter que alterar o conceito de bienais. Como vários teóricos já assinalaram, a cultura moderna manda o artista transgredir; o artista, paradoxalmente, obedece; a seguir, a cultura, espertamente, assimila a transgressão neutralizando-a no museu. Há cem anos se joga esse jogo com dados viciados. (SANTANNA, Affonso Romano. Muitos artistas produzem falácias retóricas. In O Globo, 27/12/08)