O termo 'talidomida' virou palavrão, mas a substância ainda é um remédio importante. Suas propriedades antiinflamatórias e de combate à proliferação de vasos sangüíneos fazem dela um medicamento útil para tratar tanto a hanseníase, a doença antes conhecida como 'lepra', quanto o mieloma múltiplo, um tipo de tumor da medula óssea. Como quase ninguém sabe disso, prossegue a má fama. A reputação nasceu com um célebre desastre iatrogênico, quer dizer, efeitos adversos causados pela própria medicina. Nos anos 1950, a droga foi aprovada na Europa para tratar náusea e vômitos em mulheres grávidas (nos Estados Unidos, esse uso nunca chegou a ser autorizado). Em conseqüência, cerca de 10 mil bebês nasceram com malformações, e a talidomida terminou banida. (LEITE, Marcelo. O enigma da talidomida. In Folha de S. Paulo, 28/12/08).
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
iatrogênese
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
ortorexia
Ortorexia vem a ser, mais ou menos, a mania exagerada de ingerir a comida correta, segundo seu conteúdo nutritivo, a hora em que é ingerida, a mastigação, o ambiente, o estado de espírito, a origem dos alimentos e, enfim, os inesgotáveis problemas que podem acometer o ortoréxico, que no futuro, dizem-me cá, deverá andar com uma espécie de pochete ortoréxica, contendo o mínimo essencial para o laborioso ato de comer: balança, analisador de teor de acidez, detetor de agrotóxicos, detetor de hormônios e quem mais ousa adivinhar o quê. Talvez uma empresa lance o Eat-Ride, sucesso absoluto de vendas, até que a Apple anuncie o iPot e todo dia pinte um modelo novo, vai ver que um possa até almoçar pelo dono, se faltar tempo, em época na qual ele é tão escasso e, assim mesmo ou por isso mesmo, gastam-se fortunas para matá-lo. (RIBEIRO, João Ubaldo. "Admirável Ano Novo". In O Globo, 28/12/08.
sábado, 27 de dezembro de 2008
transgressão oficial
[Os curadores e os detratores da Bienal] deixaram de lado coisas essenciais e enforcaram-se em seus próprios paradoxos. Os curadores disseram aos marginais: "eu sou o transgressor oficial, eu posso transgredir, você não". É um erro teórico e ideológico. A questão central a ser discutida é esta: nem toda transgressão é arte, nem toda arte é transgressão. Discutir isso é ter que alterar o conceito de bienais. Como vários teóricos já assinalaram, a cultura moderna manda o artista transgredir; o artista, paradoxalmente, obedece; a seguir, a cultura, espertamente, assimila a transgressão neutralizando-a no museu. Há cem anos se joga esse jogo com dados viciados. (SANTANNA, Affonso Romano. Muitos artistas produzem falácias retóricas. In O Globo, 27/12/08)
caosmos
Esses [Gerhard Richter, Laurie Anderson, Irvin Penn, Mapplethorpe, Christo, Frances Torres, Soto, Ieoh Ming Pei, Paula Rego, Francis Bacon, Krajcberg] são artistas que, entre o caos e o cosmos, criam o "caosmos", uma estrutura estética com significação emocional e intelectual. (SANTANNA, Affonso Romano. Muitos artistas produzem falácias retóricas. In O Globo, 27/12/08)
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
ansiogênese
Morrer no dia de Natal foi a derradeira, e muito típica, ironia do dramaturgo inglês Harold Pinter. [...] Nascido em 1930, ainda adolescente Pinter começou a escrever poesia. Logo, porém, encaminhou-se para o teatro. Uma de suas primeiras peças, "The Dumb Waiter" (o garçom idiota), foi escrita por sugestão de um amigo em quatro dias, e nela já encontramos os elementos que caracterizariam sua obra: um incidente banal revela-se misterioso e ameaçador ("teatro da ameaça" foi uma expressão usada para definir sua obra teatral), mas com um elemento de comédia sempre presente. A isso acrescenta-se uma linguagem viva, em que cada palavra (e também as pausas, não poucas: ele conhecia a importância ansiogênica do silêncio) tem importância transcendente, assim como a surrealista ambigüidade dos diálogos. (SCLIAR, M. Coragem bíblica e humor judeu. In Folha de S. Paulo, 26/12/08)
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
saudade do futuro
Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e carregam no peito a saudade do futuro. Também a quem mergulha todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identifica a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança. (Frei Betto. Feliz Natal. In Folha de S. Paulo, 25/12/08)
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
enredo civilizacional
O Natal faz parte do nosso enredo civilizacional. Você pode ter ou não ligação com as idéias cristãs. Mas o mito está ali, e a sua força criadora. Assim vive também, de algumas idéias-força, uma civilização como a Índia, ou a dos países muçulmanos, embebida nas histórias contadas por Maomé. Modernamente, tentamos criar "mitos substitutos". Nenhum deles funcionou. Tentaram-se a Ciência, a Razão, o Progresso, a Sociedade sem Classes. São realidades fortes [...] mas não se sustentaram como alicerces civilizacionais. (HORTA, Luiz Paulo. De mitos novos e antigos. O Globo, 24/12/08, pág. 10)
hiper-humanização
A impessoalidade do Estado faz desaparecer a pessoa numa sociedade constituída mais por casas e famílias do que por indivíduos-cidadãos. Ela segrega e torna invisível a humanidade de quem está fora do círculo de relações. Um dos dados mais visíveis da ineficiência, do descaso e da corrupção pública nos países com sistemas sociais personalistas, familistas e tribais é precisamente essa desumanização dos que não têm elos conosco, por contraste com a hiper-humanização (que conduz a uma imoral condescendência), daqueles que pertencem ao nosso partido, aldeia, família ou círculo de relações. (DaMATTA, Roberto. Feliz Natal. In O Globo, 24/12/08, pág. 7).
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